Heráclito de Éfeso - Tudo Flui

Muito pouco se sabe a respeito da vida de Heráclito de Éfeso, mas, fontes históricas seguras, como as do historiador Diógenes Laércio, apontam que Heráclito nasceu na cidade de Éfeso, na Jônia, em 540 a.C. e morreu no ano de 470 a.C.. Além disso, especula-se que ele era filho da alta aristocracia da cidade, filho do governante Blóson ou do rei Heronte. Porém, por conta do orgulho e da forte personalidade de Heráclito, o filósofo recusou a vida política, preferindo a vida isolada, afinal, dizia-se que ele tinha um extremo desprezo pelas pessoas e pelo convívio social, o que lhe rendeu a alcunha de misantropo.

O livro que lhe é atribuído é chamado “Sobre a Natureza”, mas sua obra não resistiu ao tempo, por isso só conhecemos a filosofia de Heráclito através de fragmentos escritos por outros filósofos. Ainda sobre a sua obra, dizem que o filósofo a escreveu obscuramente, com o intuito de que somente homens capazes pudessem entender os seus ensinamentos, por isso ele recebeu o codinome de Skoteinós, o Obscuro.

Segundo Heráclito, a arché seria o fogo, ou o vir-a-ser, ou seja, o princípio fundamental que sustenta e compõe todo o universo é o fogo, pois tudo se compõe a partir do fogo e nele se resolve. Isso porque, assim como o fogo, tudo está em constante movimento, ou, como o filósofo diz, tudo flui, no grego, “panta rei” (πάντα ῥεῖ). Além disso, como nos apresenta a filósofa Marilena Chaui, o entendimento do conceito “fogo” abordado por Heráclito vai além do simples elemento, já que o fogo primordial, chamado pelo filósofo de logos, é aquilo que por sua própria natureza se transforma em todas as outras e é nelas transformado sem cessar.

Por isso, tudo é originado do fogo por condensação ou rarefação. No caso, quando o fogo se condensa, logo se umidifica, e com mais consistência torna-se água, e esta, quando se condensa mais ainda, transforma-se em terra, este seria o caminho para baixo. Agora, quando a terra se derrete, esta se transforma em água, e a água, quando fica mais rarefeita, volta a transformar-se em fogo, este seria o caminho para cima. Hoje nós sabemos muito bem que não é assim que funcionam os elementos da natureza e suas transformações, mas devemos lembrar que os filósofos pré-socráticos foram os primeiros pensadores ocidentais a refletirem acerca das coisas no mundo sem o auxílio de forças sobrenaturais, e que buscavam explicar como funcionava o universo unicamente através da racionalidade, o que era um feito impressionante em um período histórico na qual não haviam as contribuições da ciência tal qual conhecemos hoje.

Ainda assim, esses primeiros filósofos chegaram a conclusões lógico-racionais coerentes e bem promissoras acerca de como funciona o universo. Por exemplo, conforme a teoria de Heráclito, a natureza está em um fluxo perpétuo, e esse constante movimento faz as coisas surgirem e desaparecerem continuamente, como nós podemos perceber facilmente observando todas as mudanças que ocorrem em nosso dia a dia e em nossa própria vida. Tudo muda o tempo todo.

Portanto, o filósofo sugeriu que o equilíbrio dos opostos, por exemplo, o dia e a noite, o quente e o frio, levava à unidade do universo. Ou seja, não poderíamos compreender o dia se nunca tivéssemos conhecido o que é a noite, assim como não conseguiríamos entender o que é o quente se não houvesse o frio. Heráclito também afirmou que uma tensão é constantemente gerada entre esses pares de opostos, em um eterno duelo, concluindo então que tudo está em permanente mudança, o dia muda para noite e vice-versa, eternamente, afinal, nada fica estático, pois tudo está em uma constante mutação.

É de Heráclito uma das frases mais famosas do meio filosófico, a saber, “Não se banha duas vezes no mesmo rio”, pois, no instante em que se entra em um rio, águas novas imediatamente substituirão aquelas nas quais a pessoa imergiu, assim, tanto a pessoa quanto o rio já não são mais os mesmos. Essa frase resume bem todo o pensamento heraclitiano, demonstrando, através do simples ato de banhar-se em um rio, que tudo a nossa volta está em constante movimento, inclusive nós mesmos, tendo em vista que já não somos mais os mesmos de quando começamos a ler esse texto.

Autor: João Paulo Rodrigues


Referências:

https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/heraclito.htm

ROCHA, Zeferino. Heráclito de Éfeso, filósofo do Lógos. Rev. latinoam. psicopatol. fundam. vol.7 no.4 São Paulo Oct./Dec. 2004. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-47142004000400007

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. FILOSOFANDO: Introdução à Filosofia. 6ª Edição. São Paulo; Editora Moderna, 2016.

Os Pensadores. Os Pré-socráticos. Trad. José Cavalcante de Souza. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1996.